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4 de fevereiro de 2026ESCREVER É CONSTRUIR UMA CASA
WRITING IS BUILDING A HOME
Raquel Gonçalves

N
este mundo quase infinito de viagens e despedidas, partidas e chegadas, nômades ou peregrinos procuram acolhimento, uma casa onde não se sintam sós. Mas o mundo não é feito apenas de coisas concretas. A escrita constrói um universo habitável de palavras, memórias, ideias e sentimentos, onde talvez mais do que no endereço pertencemos.
Esse espaço convida outras pessoas, que também viveram experiências semelhantes, e logo se cria uma comunidade.
É assim que a escritora Raquel Gonçalves vem construindo sua pátria e fazendo novos amigos: através da literatura. “Quando as pessoas leem o que escrevo e se identificam, as histórias nos conectam e sinto que não estou sozinha. A literatura constrói um país. Lar é onde estão os meus livros: onde puder ler e escrever me sentirei em casa. Acho que todo expatriado deve se sentir um pouco ‘perdido’, mas a leitura de autores brasileiros, muitas vezes expatriados como eu, me encontra e permite criar raízes, não importa onde estiver.”
Raquel saiu do Brasil em 2002. Casada, teve dois filhos enquanto morava em Doral, no condado de Miami-Dade, mas os meninos foram criados em Santiago do Chile, onde a família viveu por 7 anos. De regresso à Flórida, mas agora na tranquila Weston, viu seus meninos terminarem o high school e partirem para o college. E a literatura? “Continua minha melhor companheira, me ajuda a reparar as saudades, as distâncias, as faltas ou as sobras da vida.”
A escrita sempre fez parte do seu mundo, seja como cronista ou acadêmica – ela é formada em Psicologia, mestra em Educação e especialista em Neuropsicologia Infantil.
“Comecei a escrever crônicas do cotidiano quando tive depressão pós-parto, a literatura me salvou, daí não parei mais. Aprender a viver com alegria e bom humor deveria ser ensinado nas escolas, acho fundamental viver com leveza e o riso ajuda a resolver muitos problemas.”
Raquel participou da segunda edição da coletânea “Brava Gente Brasileira em Terras Estrangeiras”, em 2005; também escreveu para jornais e sites. Muita coisa cabe na sua escrita: comportamento, saúde mental, humor, relacionamentos, consumo, viagens... A poesia também faz parte: em 2022 lançou o
livro “Canteiros” na 34 Bienal em São Paulo: “Se a crônica aponta o olhar para fora, para a realidade exterior, a poesia é olhar para dentro, interpretando, esmiuçando, reescrevendo essa coisa difícil de entender, e que chamamos coração.”
Desde 2025, suas crônicas têm endereço f ixo no site Cartas Voadoras: “É onde permito derramar minhas ideias e memórias, vividas ou imaginadas, onde aprendo a viver nesse país que vem me acolhendo há mais de 17 anos.” E o Brasil? “Está bem aqui, onde a saudade encontra o lápis e papel. Ler e escrever não só me aproximam do meu país, reforçando minha identidade brasileira, mas também me faz viajar dentro de mim mesma. Acho que somos todos imigrantes, de uma maneira ou outra: todos abandonamos um tempo ou lugar, seja a infância, a casa, o país, a família, trabalhos ou relacionamentos, e partimos rumo ao desconhecido. Se nossa bagagem é a memória, escrever significa arrumar as malas.”
I
n this almost infinite world oftravels and goodbyes, departures and arrivals, nomads or pilgrims seek shelter, a home where they don’t feel alone. But the world is not just made of concrete things.
Writing builds a habitable universe of words, memories, ideas, and feelings, where – perhaps more than in the address we belong.
This space invites other people, who have also lived similar experiences, and soon a community is created.
This is how writer Raquel Gonçalves has been building her homeland and making new friends: through literature. “When people read what I write and identify with it, the stories connect us and I feel I’m not alone. Literature builds a country. Home is where my books are: where I can read and write, I’ll feel at home. I think every expatriate must feel a little ‘lost’, but reading Brazilian authors, often expatriates like me, f inds me and allows me to create roots, no matter where I am.”
Raquel left Brazil in 2002. Married, she had two children while living in Doral, Miami-Dade County, but the boys grew up in Santiago, Chile, where the family lived for 7 years. Returning to Florida, now in quiet Weston, she saw her boys finish high school and leave for college. And literature? “It continues to be my best companion, helping me repair the longings, distances, lacks, or leftovers of life.”
Writing has always been part of her world, whether as a columnist or academic – she holds a degree in Psychology, a Master’s in Education, and is a specialist in Child Neuropsychology. “I started writing chronicles of everyday life when I had postpartum depression, literature saved me, and I never stopped. Learning to live with joy and good humor should be taught in schools, I think it’s essential to live with lightness and laughter helps solve many problems.”
Raquel participated in the second edition of the anthology “Brava Gente Brasileira em Terras Estrangeiras” in 2005; she also wrote for newspapers and websites. Her writing covers many topics: behavior, mental health, humor, relationships, consumption, travel... Poetry is also part of it: in 2022, she released the book “Canteiros” at the 34th Biennial in São Paulo: “If the chronicle looks outward, to external reality, poetry is looking inward, interpreting, dissecting, rewriting that hard-to-understand thing we call the heart.”
Since 2025, her chronicles have a f ixed address on the Cartas Voadoras website: “It’s where I allow myself to pour out my ideas and memories, lived or imagined, where I learn to live in this country that has been welcoming me for over 17 years.”
And Brazil? “It’s right here, where longing meets pen and paper. Reading and writing not only bring me closer to my country, reinforcing my Brazilian identity, but also make me travel within myself. I think we’re all immigrants, in one way or another: we all abandon a time or place, whether it’s childhood, home, country, family, jobs, or relationships, and we set off into the unknown. If our baggage is memory, writing means packing our bags.”

